Madeline
15, abril de 2026
Perder-te hoje recorda-me de quando perdi o meu avô. Completo d'aquele olhar vazio de intenção, que pousa em qualquer lugar, enquanto a minha cabeça consome todas as minhas forças a procurar formas de me magoar, editando novas cenas para o filme das minhas falhas. Talvez o faça com a esperança de que, se eu não olhar para ninguém, ninguém me possa ver; mas, no final, isso só me torna mais notável. Como um insólito, imóvel e pesado obelisco no meio do deserto: tão discreto que acaba por atrair todos os olhares, com uma atmosfera que emite um vácuo capaz de repelir qualquer calor. As pessoas, movidas pelo mistério e pelo desconforto da imagem, tentam preencher o silêncio desagradável. José Peixoto acredita que o fazem por entenderem a sua dor; eu acredito que elas não têm ideia do que fazer com ele, como se o problema, de repente, lhes pertencesse.
E então, compadecido da minha própria tristeza e da autopiedade que me permito sentir, guardo para mim a vergonha de ser o único responsável pela minha angústia. Respondo com palavras secas, confirmações de que, tal como o obelisco surgiu, um dia ele desaparecerá. Alimento a ilusão de que, em algum momento, isto vai parar, quando, na realidade, esta dor já me mudou para sempre.
Se eu soubesse que a última vez que os nossos olhos se cruzaram seria, de facto, a última... Que aquele "tchau", que eu imaginei ser o primeiro de uma eternidade de breves despedidas, se tornaria num Adeus. Se eu soubesse que, após aquela partida, eu cometeria erros que transformariam a lembrança de mim em rancor; que eu falharia em ser o homem de que precisavas e que eu, apaixonadamente, tanto desejei ser... teria enfrentado o meu terror. Teria mergulhado fundo nos teus olhos, na esperança de me amarrar à tua alma. Teria decorado cada fio castanho do teu cabelo, pesado como ouro sob as minhas mãos. Ter-te-ia segurado forte nos meus braços para sempre, consciente de que qualquer homem que tivesse tido alguma parte de ti jamais poderia ser feliz sem ela.
Foi como se me tivessem mostrado a perfeição por um segundo para logo depois ma arrancarem. Com a porta que fechei atrás de mim, carregando as cicatrizes que agora partilho por as ter infligido em alguém que amei plenamente, tive de entender por que não a mereço. Obrigado a despedaçar um sonho em favor de uma realidade brutalmente opaca. E a sensação de que um dia esquecerei é desafiada pelo pensamento de que apenas me resta sobreviver.
Todos os bons momentos que virão serão, com um estalo seco, interrompidos pela convicção de que seriam melhores contigo neles. Mas esse barco partiu e eu fiquei no cais, com a certeza absoluta de que, embora o tempo passe, o vazio e o silêncio que deixaste é a única coisa que não se move. Como quem encara o horizonte infinito. Rezo, para que um dia a brisa do mar me traga de volta o teu rasto, ou que o próprio tempo, no seu vaivém de marés, te devolva a mim.
Trabalho em progresso; falta algo substancial para ficar bom. Soa até meio cringe; eu nunca vou ser Dostoievski. Completamente inspirado por Zach Bryan e Morreste-me, de José Luís Peixoto. Madeline vem da música Madeline, de Zach Bryan.
última atualização em 15 de abril de 2026, às 22:28